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quarta-feira, 21 de março de 2012

19 A Vida Completa


Desde pequeno, Alberto era indolente. 
     Tudo que começava não levava a cabo e, caso o fizesse, era a muito custo. Na escola particular, bancada com sacrifício por seus pais, tirava notas medíocres e passava de ano raspando. Depois de terminar o segundo grau, ingressou em duas faculdades diferentes, mas desistiu no meio do caminho. Ficou algum tempo sem trabalhar, e sua vida se resumia a festas.
     Quando por fim foi intimado pelo pai a arranjar um emprego, foi como se o estivessem enviando para a guerra.
     – Merda de vida! – queixava-se frequentemente.
     Gastava todo o dinheiro que ganhava e pedia mais para mãe. Esta dava mais algum, sempre às escondidas do pai do rapaz. E mesmo assim ele reclamava...
     – Como eu queria ter muito dinheiro! – desejava ardentemente – Ser rico e ter tudo o que eu quisesse. Sem precisar me matar de trabalhar...
     Certo dia, enquanto estava no ônibus indo para o emprego, um velho maltrapilho entrou no ônibus carregando folhetos de papel já bem amassados. O sujeito tinha o lado esquerdo do corpo paralisado e não falava direito. Equilibrando-se e se agarrando aos balaústres para não cair, foi distribuindo os papéis entre os passageiros.
     Quando chegou ao lado de Alberto e lhe estendeu uma folha, este pegou-a com a ponta dos dedos, sem ao menos olhar na cara do velho, que prosseguiu com sua tarefa. Alberto passou os olhos pelas palavras. Explicavam que o homem havia sofrido um derrame cerebral, não tinha quem cuidasse dele e pedia uma pequena ajuda em dinheiro.
     Depois de chegar aos fundos do ônibus, o velho refez o percurso pegando de volta os papéis. Algumas pessoas deram moedas junto e o homem agradecia com um aceno. Então ele chegou até Alberto, estendendo a mão. Demorou a notar a bola de papel amassado aos pés do rapaz. Não deu indícios de protestar, porém, mesmo assim, Alberto lhe lançou um olhar duro e perguntou, em voz alta e clara:
     – Quem o senhor pensa que é para vir me pedir dinheiro? – o velho ficou sem reação. Algumas pessoas se voltaram para ver o que acontecia. – Assim é muito fácil, não é? Chegar e pedir dinheiro! Já experimentou trabalhar? É isso que as pessoas fazem, sabia? Tenho meus próprios problemas e não preciso dos seus para me aborrecer ainda mais!
     O pobre homem limitou-se a observá-lo com olhos tristes, enquanto o ônibus balançava. Houve silêncio, até que o senhor forçou uma frase quase incompreensível:
     – Vocêê... vai... terrr... tudo o que... querrrr.
     Alberto não compreendeu aquilo e também não deu importância. Saltou do ônibus.
     Poucos dias depois, Alberto recebeu a notícia de que tinha ganhado um prêmio da loteria. Não era possível! Era bom demais para acreditar!
     Sua vida mudou completamente dali em diante. Foi morar sozinho numa mansão, parou de trabalhar e dava festas e mais festas. Tinha tudo o que um homem poderia querer: dinheiro, carros, mulheres... Tinha TUDO. Estava, enfim, feliz.
     E assim seguiu sua vida, regada a privilégios... Mas como acontece com um prato que se come todos os dias, aquilo foi perdendo o sabor. O dinheiro multiplicava-se, mulheres lindas estavam aos seus pés, a tecnologia era sua serva fiel. Entretanto, aquilo era estafante.
     Será que faltava alguma coisa? Não, dizia. Tenho tudo. De fato, ele estava realizado. Todas as ambições que alimentou foram saciadas, todas as vontades satisfeitas. Não precisava de mais nada. Sou um homem completo!

      Você vai ter tudo o que quer... Dissera-lhe o velho maltrapilho.

     Subitamente, compreendeu a verdade daquelas palavras.
     O castigo embutido nas entrelinhas.
      Completo!
     No dia seguinte, foi veiculada em todas as mídias que o jovem milionário encontrava-se em sua mansão.
     Morto. Aos 25 anos...

Angelus.

sexta-feira, 9 de março de 2012

14 Ódio



Arma poderosa
Se bem usada,
É mortal para quem está apontada
E letal para quem aponta

Todas as palavras doces voam pelos ares
A educação espera do lado de fora
Que tudo vá à merda!

As mãos desejam apertar
Se fechar em volta do alvo
Anseio sombrio

Duas vidas se acabam ali
A desejosa de vingança
E merecedora desta

Rápido
Corrosivo
Mortal.

Angelus.

sábado, 3 de março de 2012

9 Meu Herói



Necessidades heroicas
Último instante
Morte iminente

Enfim surgimento
Uma vida salva
Vivas calorosos

Suspiros femininos
Respeito viril
Saída estratégica

Meras necessidades heroicas
Desejos de uma mente sonhadora
Que não aprendeu a crescer

Aspirações heróicas beirando o fantástico
Um simples humano já não basta para esse ser
Ser mortal já não é o suficiente

Um nome nas estrelas causa amnésia
Os pés estão na Terra
E os heróis

São anônimos.

Angelus.